Djhordney denuncia racismo de Rocco em jogo da Copa do Brasil Sub-20 em Fortaleza

Na quarta-feira, 12 de novembro de 2025, às 21h, no Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza, um dos jogos mais tensos da Copa do Brasil Sub-20 virou símbolo de uma luta que o futebol brasileiro ainda não conseguiu vencer: o racismo. O meia Djhordney, camisa 8 do São Paulo Futebol Clube, denunciou ter sido chamado de "macaco" pelo atacante chileno Rocco, do Fortaleza Esporte Clube, aos 26 minutos do primeiro tempo. O árbitro Paulo Vitor de Lima Pereira interrompeu a partida, acionando o protocolo antirracista da FIFA — mas, ao invés de expulsar o agressor ou anular o jogo, permitiu que os jogadores voltassem ao campo após quatro minutos de pausa. Nada foi feito na hora. Nada. E isso, mais do que a ofensa, é o que dói.

O que aconteceu no Estádio Presidente Vargas

Ao som de uma torcida que gritava, mas não reagiu ao que aconteceu, Djhordney se viu sozinho em um momento que deveria ser de esporte. O golpe veio de trás, em um momento de disputa. Segundo a repórter Marta Negreiros da Sportv e confirmado por outras fontes da imprensa esportiva, Rocco, que atua como ponta, disse a frase racista bem perto do ouvido do jovem brasileiro. O árbitro, ao perceber a tensão, chamou os capitães e iniciou o procedimento previsto pela CBF. Mas o que deveria ser um momento de punição virou um silêncio ensurdecedor. Rocco foi substituído no intervalo — e não voltou. Djhordney, por outro lado, seguiu jogando. Como se nada tivesse acontecido. Como se a ofensa fosse apenas um ruído no meio do jogo.

As reações dos clubes: desculpas e promessas

Menos de uma hora após o fim do jogo, o São Paulo Futebol Clube publicou uma nota sem rodeios: "O São Paulo Futebol Clube repudia, veementemente, o ato de racismo ocorrido contra o jogador Djhordney... Não há espaço para o racismo no futebol nem em qualquer outro lugar da sociedade." A linguagem foi dura, direta. E o clube prometeu "tomar as medidas cabíveis". Já o Fortaleza Esporte Clube foi mais cauteloso. Em comunicado, disse que "se solidariza com o atleta Djhordney" e que, "ainda durante a realização da partida, procurou os representantes do São Paulo para se desculpar". Ou seja: os dirigentes do Fortaleza não esperaram o fim do jogo para tentar apagar o fogo. Mas será que desculpas bastam quando o protocolo foi ignorado?

Um árbitro, um protocolo e uma falha sistêmica

O protocolo antirracista da FIFA prevê, claramente, que se o agressor não for identificado ou punido após três minutos de paralisação, o jogo deve ser encerrado. Aqui, o árbitro Paulo Vitor de Lima Pereira parou por quatro minutos — e depois deu continuidade. Nenhuma advertência. Nenhuma expulsão. Nenhum relatório imediato. Isso não é erro. É negligência. E isso não é só sobre uma partida de juvenis. É sobre o que o futebol brasileiro tolera. O mesmo árbitro já apitou jogos da Série A, e sua atuação aqui reforça um padrão: quando o racismo é sutil, quando o agressor é branco, quando a vítima é negra, o sistema tende a minimizar. O caso de Rocco não é isolado. Em 15 de novembro, cinco dias depois, uma torcedora em Chapecó gritou "olha a tua cor" para torcedores do Remo. E o que aconteceu? Nada. Novamente.

Contexto: o Brasil e a dor diária dos jogadores negros

Contexto: o Brasil e a dor diária dos jogadores negros

Em março de 2025, o paraguaio Luighi, do Corinthians, disse em entrevista ao LANCE! que o Brasil é "o país mais racista da América do Sul". Que sofre ataques racistas "diários". Que "o Brasil tem que consertar primeiro as coisas internamente". Ele não estava só. Jogadores como Vinícius Júnior, Gabigol e até jovens da base já relataram o mesmo. E o que o futebol faz? Aplica multas simbólicas, faz campanhas de "respeito" e espera que o problema desapareça. Mas o racismo não some por decreto. Ele se alimenta de silêncio. De arbitragens que não punem. De clubes que se desculpam, mas não investigam. De torcidas que aplaudem enquanto ofendem.

O que vem aí: o jogo de volta e as consequências

A partida de volta está marcada para quarta-feira, 19 de novembro de 2025, no CFA (Centro de Formação de Atletas), em Cotia. O São Paulo venceu por 2 a 0 e tem vantagem no placar. Mas o que está em jogo agora não é só uma vaga na semifinal. É a credibilidade do próprio futebol. A CBF já disse que abrirá um processo disciplinar. A FIFA, por sua vez, monitora casos como este com atenção. Rocco pode ser suspenso por até 10 jogos. O Fortaleza pode ser multado. Mas será que isso basta? O que o futebol precisa é de punição imediata, de árbitros treinados para agir, de clubes que não se limitem a notas de desculpas. Precisa de coragem. E até agora, só vimos medo.

Um jogo que não terminou

Um jogo que não terminou

Djhordney não está apenas jogando. Ele está lutando. Por ele, por todos os jovens negros que sonham com uma camisa de time grande, mas têm medo de ouvir o que ele ouviu. O futebol diz que é paixão. Mas quando a paixão se transforma em ódio, o que resta? Um placar de 2 a 0. Um silêncio. E um garoto de 18 anos que, mesmo depois de tudo, voltou ao campo. Porque ele ama o jogo. Mas o jogo ainda não aprendeu a amá-lo de verdade.

Frequently Asked Questions

Por que o árbitro não expulsou Rocco mesmo após o protocolo ser acionado?

Apesar do protocolo antirracista da FIFA prever a interrupção definitiva do jogo após três minutos caso o agressor não seja identificado ou punido, o árbitro Paulo Vitor de Lima Pereira optou por retomar a partida após quatro minutos, sem aplicar sanção imediata. Isso ocorreu mesmo com a confirmação da ofensa por múltiplas fontes. A CBF já anunciou que investigará a atuação do árbitro, mas até o momento, não há punição disciplinar aplicada.

O que o Fortaleza fez após o incidente?

O Fortaleza Esporte Clube afirmou que procurou os representantes do São Paulo ainda durante o jogo para se desculpar formalmente. Em nota, o clube disse que "reitera sua posição de enfrentamento ao preconceito" e que se solidariza com Djhordney. No entanto, não anunciou qualquer punição interna a Rocco, nem divulgou se o jogador foi chamado para esclarecimentos ou treinamento antirracista, o que levanta dúvidas sobre a efetividade das ações.

Já houve casos semelhantes no futebol brasileiro recente?

Sim. Em 15 de novembro de 2025, cinco dias após o episódio, uma torcedora em Chapecó, Santa Catarina, dirigiu gestos e frases racistas contra torcedores do Remo, repetindo "olha a tua cor". Também em 2025, o jogador Luighi, do Corinthians, afirmou que sofre ataques racistas "diários" no Brasil. Esses casos mostram um padrão recorrente: ofensas frequentes, pouca punição e reações tardias ou simbólicas por parte das autoridades.

Quais são as possíveis punições para Rocco?

A CBF pode aplicar suspensão de até 10 jogos, multa financeira e obrigar Rocco a participar de programas educacionais sobre diversidade e combate ao racismo. A FIFA também pode abrir processo se considerar que o caso violou seu Código de Ética. Como Rocco é estrangeiro (chileno), sua permanência no futebol brasileiro pode ser afetada caso haja sanções graves. A punição, porém, só será decidida após análise das gravações e depoimentos, que ainda estão em análise.

Por que o São Paulo venceu o jogo mesmo com o incidente?

O placar de 2 a 0 reflete o desempenho técnico do São Paulo, que teve maior posse de bola e mais finalizações. Mas o fato de Djhordney ter permanecido em campo após o incidente e ainda contribuído para a vitória mostra sua força mental. Ele não deixou o racismo tirar seu foco — e isso, para muitos, é mais importante do que o resultado. O gol de Vitinho e o de Matheus Ribeiro foram marcados após a paralisação, como se o time quisesse responder com o jogo, não com palavras.

O que o futebol brasileiro precisa fazer para acabar com o racismo?

Precisa de punição imediata e pública, não apenas simbólica. Árbitros precisam ser treinados para agir sem medo. Clubes devem demitir jogadores que cometem racismo, não apenas pedir desculpas. E torcidas precisam ser punidas coletivamente — não apenas por indivíduos. O futebol é o maior esporte do país, mas também é um espelho da sociedade. Se quer ser exemplo, precisa agir como tal — e não apenas quando o mundo está olhando.

1 Comment

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    Marcelo Serrano

    novembro 28, 2025 AT 18:34

    Essa história me partiu o coração. Esse garoto de 18 anos voltou ao campo depois de ouvir algo que nenhum ser humano deveria ouvir. E o pior? Ninguém fez nada na hora. O futebol tá perdendo a alma, e ele tá lá, jogando como se nada tivesse acontecido. Isso não é coragem, é desespero.

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